segunda-feira, outubro 15, 2012

Para entender as eleições americanas

É tempo de eleições no Brasil e nos Estados Unidos. Como vocês já devem conhecer muito bem o processo eleitoral brasileiro, resolvi abordar as eleições americanas e dar uma visão "de dentro" do que está acontecendo este ano.

Em novembro, será eleito o presidente para os próximos quatro anos, contados a partir de janeiro de 2013. Devido ao poderio econômico, político e militar americano, os resultados das eleições daqui são importantes não só para os americanos, mas para o mundo todo, já que afetarão a postura dos EUA nos assuntos domésticos e internacionais nos próximos anos.

Embora oficialmente existam aqui vários partidos, na prática há somente dois que contam: os democratas e os republicanos. O Barack Obama, democrata, tenta se reeleger. O ex-governador de Massachusets, Mitt Romney, é o candidato republicano.

Depois de mais de 5 anos de recessão, desemprego, perda de poder aquisitivo da classe média e do fim do "sonho americano", esta eleição está se tornando quase que um plebiscito sobre o governo Obama, que assumiu prometendo mudança e oferecendo esperança, que acabaram por se transformar em decepção para boa parte do eleitorado. 

Para entender melhor essa disputa, é preciso entender as diferenças de filosofia de governo entre estes dois partidos. Os democratas (chamados de liberais, ou de esquerda), pregam uma influência maior do governo em termos de políticas sociais e regulamentação da economia. Já os republicanos (chamados de conservadores, ou de direita) pregam um "governo central menor", com menor interferência no mercado e são mais rígidos nas políticas sociais.

Aí, logo de cara, há um contra-senso: os democratas, apesar de serem mais "intervencionistas" em termos da economia, com políticas que de certa forma estimulam a distribuição de renda (seja através de taxação progressiva com relação à renda do contribuinte, ou através de uma rede maior de amparo social como seguro-desemprego e assistência médica), por outro lado são mais flexíveis com relação às práticas individuais, apoiando o aborto e o casamento homossexual. Já os republicanos, por serem mais do tipo "cada um por si", pregando uma menor interferência do governo na economia e no mercado e um maior rigor no amparo social (para que as pessoas não passem a viver às custas do governo), por outro lado são menos flexíveis com relação ao comportamento social, sendo mais tradicionalistas.

Como estas posturas de cada um dos partidos têm se exacerbado ao longo dos anos, o que se tem visto é cada vez menos os deputados e senadores buscando acordos e consenso. Assim, se há uma proposta boa por parte dos republicanos, os democratas bloqueiam. Se há uma legislação importante e útil elaborada pelos democratas, os republicanos votam contra. Isso está gerando uma polarização extremamente negativa e o país e a população acabam pagando a conta.

Ora, vocês aí no Brasil devem estar pensando que isso é normal, pois acontece demais na política brasileira, mas aqui não era assim. Ainda que sempre houvesse a doutrina e o interesse do partido, os políticos, sob a liderança do presidente e de membros influentes do Congresso e do Senado, eram capazes de fazer acordos visando o bem do país. No governo Reagan (republicano) e no governo Clinton (democrata), por diversas vezes os partidos se uniram e apoiaram importantes decisões que acabaram por contribuir para o progresso da nação.

Para piorar, esta campanha tem sido absurdamente cara e suja. Cara porque milhões de dolares estão sendo gastos com propaganda. Suja, porque quase sempre a propaganda visa falar mal do adversário ao invés de apresentar propostas ou idéias, ambos lados distorcendo fatos e baixando o nível da campanha política.

De onde vem tanto dinheiro? Dos Super PACs (Comitês de Ação Política). Os Super PACs são uma aberração recente devido à uma decisão bastante infeliz da Suprema Corte. Resumindo uma longa história: antes dessa decisão, as empresas (pessoas jurídicas) podiam contribuir para as campanhas só até um determinado valor, enquanto os cidadãos (pessoas físicas) podiam contribuir à vontade. A idéia era evitar que o poderio econômico das grandes empresas desequilibrasse o jogo. Entretanto, em janeiro de 2010, o Supremo deu ganho de causa à uma ação que alegava que as corporações deveriam ser tratadas como indivíduos e que esse limite de contribuição violava a livre expressão da corporação. Com isso, as empresas ficaram livres para contribuir quanto quisessem, desde que a contribuição não fosse feita diretamente ao candidato. Assim, surgiram os Super PACs, que por lei não podem ter vinculação direta com o candidato, mas podem apoiar e fazer propaganda. Os lobistas fizeram a festa e começou a jorrar dinheiro nos bolsos dos Super PACs, doado por empresas e de grupos de interesse querendo apoiar o candidato que fosse mais alinhado com eles. Como resultado, milhões de dolares passaram a ser gastos em propaganda apoiando um candidato e enxovalhando os concorrentes. Esta passou a ser então a eleição mais cara da história (recorde que certamente será quebrado a cada eleição daqui para a frente).

Infelizmente, os vícios do processo eleitoral não param aí. Os EUA gostam de se gabar de serem a maior democracia do mundo. Entretanto, há um "pequeno detalhe" que pouca gente percebe: boa parte dos votos para presidente não vale nada! Vamos ver se consigo explicar isso sem complicar muito.

A eleição para presidente aqui não é feita através de voto direto, mas sim através de colégio eleitoral, como era no Brasil no tempo da ditadura e das falsas eleições. Assim, o candidato/partido mais votado em um estado, nomeia TODOS os representantes do estado para o colégio eleitoral. Por exemplo: no estado de NY, tradicionalmente o candidato democrata ganha, enquando no Texas, o candidato republicano ganha. Assim, todos os delegados que NY envia para o colégio eleitoral são democratas e todos os delegados do Texas são republicanos. Cada estado tem número de delegados proporcional à população do estado.

Parece um processo justo, mais não é. Ainda no nosso exemplo, se em NY o democrata ganhar por apenas 1 voto, ou se no Texas o republicano ganhar por apenas 1 voto, todos os votos dos perdedores são descartados - o vencedor leva tudo. Já sabendo disso, os candidatos praticamente só fazem campanha nos estados onde historicamente não há um domínio de um partido. Estes estados, cerca de apenas uma dúzia, são chamados de battleground states (campos de batalha) e são os que definem a eleição.

Qual o resultado disso? Não há incentivo para um eleitor de um estado como NY ou Texas ir votar (o voto nos EUA não é obrigatório) e um presidente na verdade acaba sendo eleito por uma pequena parcela da população (desses battleground states) mesmo que não tenha tido o maior número de votos individuais (chamados votos populares) somados no país todo.

Assim, a "maior democracia do mundo", elege um presidente que teve poucos votos, que pode ter sido o menos votado, que se promoveu às custas de malhar o adversário com muito dinheiro de empresas, e que vai governar com apoio de um partido e ignorando o outro... Depois não entendem o por que do país estar em má situação...

Com relação aos candidatos deste ano: se eu tivesse que votar, não votaria em nenhum dos dois. O Barack Obama foi eleito como salvador da pátria. Me lembro que na época (em 2007/2008) eu comentei que estava acontecendo aqui o mesmo que aconteceu com o Brasil na época do Collor. O povo achava que num passe de mágica o presidente misto de super-homem iria resolver todos os problemas do país. Além da expectativa ser muito alta, não levavam em conta que o Obama tinha experiência administrativa igual a zero, nunca tendo tido um cargo executivo nem de síndico de prédio. Naquela eleição, se era para eleger alguém sem experiência executiva, teria feito mais sentido eleger a Hillary Clinton, pois de quebra ganharíamos o Bill Clinton, que é reconhecido como o melhor político da geração dele.

O Obama se elegeu, foi aquele oba-oba todo por ser o primeiro presidente negro, mas passada a euforia, a realidade é que o país enfrentava uma crise gravíssima, resultado de 8 anos desastrosos do "governo" Bush. Para resolver uma crise desse tamanho, o país precisaria de um presidente que exercesse liderança sobre a classe política, quebrando a barreira entre os partidos, que tivesse coragem de adotar medidas severas, muitas vezes impopulares e, principalmente, que tivesse um plano e gerenciasse a sua execução. Ora, o Obama não tinha nada disso o que foi logo percebido pelos políticos e a crise continuou a se aprofundar.

Já o Mitt Romney, embora tenha sido um bom governador em Massachusets e ter uma grande experiência empresarial, tem que seguir a doutrina do partido republicano, que na minha opinião é muito radical e, por ser muito apoiado pelas grandes empresas e pelo mercado financeiro, não vai fazer as reformas que precisam ser feitas. Além disso, com a possibilidade de durante os próximos quatro anos dois juízes do Supremo se aposentarem, o Romney nomearia mais dois conservadores o que quebraria o já tênue equilíbrio daquela corte, causando um retrocesso principalmente com relação aos direitos individuais.

O que os EUA precisam hoje é de um partido e um presidente de centro, que entenda que quanto maior a crise, maior a união necessária para vence-la. Um presidente que tenha experiência e legitimidade política, que não esteja comprometido com determinados grupos de interesses por ter sido eleito com o dinheiro deles.

Lendo artigos no jornal e até as cartas dos leitores, parece que todo mundo tem planos e sugestões prontos para resolver os problemas do país, menos os dois candidatos (ou os quatro, se incluirmos os respectivos vices). Eu também tenho e, assim como os 10 mandamentos, ele tem 10 pontos para uma reforma política e econômica de base:

1- Elaborar um orçamento realista, que reduza as despesas progressivamente (não é simplesmente gastar menos e sim gastar de forma mais inteligente), eliminando aos poucos o déficit e o endividamento, reduzindo o tamanho do governo - isso é possível e foi feito durante o governo Clinton;
2- Adotar medidas que incentivem as empresas a criarem empregos dentro do país e sobretaxando aquelas que exportarem trabalho ou capital - mais empregos nos EUA e não na China;
3- Passar uma lei especial, do tipo oportunidade única, dando incentivos para as empresas repatriarem lucros que hoje estão nos paraísos fiscais para evitar taxação aqui. Mudar a partir daí a legislação visando evitar repetição do problema;
4- Reformar e simplificar o código tributário, tornando-o simples e direto: acabar com os milhares de casos especiais de que as empresas se aproveitam (os loopholes) e, no caso dos indivíduos, eliminar os tetos - taxação sobre a renda total, independente do valor;
5- Criar um programa, juntamente com as empresas e as universidades, visando o treinamento de mão de obra ociosa (leia-se desempregados), com incentivos para a contratação - ao invés de ficar pagando seguro-desemprego, o governo usaria o dinheiro para ajudar a empresa a contratar (por exemplo, reduzindo por um certo período os encargos trabalhistas). Ainda que houvesse uma temporária redução de arrecadação, ela seria compensada com a economia em seguro-desemprego e outras formas de amparo social, sem contar que o contratado passaria a consumir e a pagar imposto, ajudando a aquecer a economia;
6- Regulamentar o mercado financeiro, voltando a separar bancos comerciais das empresas de investimentos financeiros, e colocar maiores controles visando maior transparência em produtos "exóticos" como os derivativos, que foram o estopim dessa crise econômica;
7- Melhorar a competitividade do país, investindo em infra-estrutura portuária, de energia, transporte de cargas, e incentivando os estados a simplificarem os processos de abertura e manutenção de empresas - além de gerar empregos isso reduziria a burocracia e os custos embutidos nos produtos e serviços;
8- Reforma da lei eleitoral, criando limites de mandatos para deputados e senadores, acabando com o colégio eleitoral e limitando os valores de contribuição e gastos de campanha;
9- Instituição de um comitê supra-partidário para auto-regulamentação e controle da propaganda política, similar ao que existe hoje na área de marketing; 
10- Tudo isso seria parte de um "Plano de Metas", com uma estrutura de gerenciamento profissional (e apolítica) e com pontos de verificação pré-definidos, para assegurar que não se perdesse no caminho.

Mas, como não sou candidato, acho que isso não vai acontecer e vamos continuar patinando sem sair do lugar, ou andando para trás. A solução talvez seja começarmos a aprender chinês...

quarta-feira, setembro 19, 2012

Diários de Viagem: Conclusão

Hoje fazem exatamente 4 meses desde que voltamos da viagem por Roma e Israel. Propositadamente, esperei chegar este dia para escrever a conclusão dos Diários de Viagem, como forma de comemoração e como forma de poder ter um certo distanciamento que o tempo permite.

Aqueles que tiveram a paciência (e, espero, o prazer) de ler todos os 17 capítulos anteriores e ver as mais de mil fotos e vídeos postados, sabem o quão rica foi essa viagem em termos de história, cultura em geral e, principalmente, beleza.

Não vou cair na armadilha ou asneira de eleger os melhores ou piores lugares por onde passamos, ou as melhores e piores situações que enfrentamos. Quem se dispõe a viajar para lugares novos, diferentes, tem que estar preparado para alegrias e aborrecimentos. Tivemos muitas das primeiras e poucas das segundas, portanto o saldo é altamente positivo.

Como escolher o que foi melhor, entre a alegria de Roma, a espiritualidade de Jerusalém, o exótico do Mar Morto e do deserto, a imponência de Massada, o azul cristalino dos mares Vermelho e Mediterrâneo, a beleza exuberante do Golan, a emoção vivida em Haifa, ou a modernidade de Tel Aviv? Impossível e seria injusto. Cada lugar tem o seu caráter, o seu significado, a sua importância. Portanto, vou me ater a comentar de forma genérica os dois países que visitamos, a Itália (ainda que só Roma) e Israel.

O pouco que pudemos ver da Itália, nos deu a sensação de que apesar do Brasil ter sido colonizado pelos portugueses, a alma do brasileiro tem mais a ver com o italiano. Roma e o italiano têm a informalidade, espontaneidade e, por que não, a desorganização do brasileiro, ao contrário de Portugal, que é mais formal, mais sério. É difícil acreditar que aquele pedacinho de terra gerou o maior império do mundo antigo e dominou por centenas de anos grande parte do planeta até então conhecido.

Adoramos as praças com seus inúmeros chafarizes, a comida, os sorvetes. Ficamos pasmos com a riqueza e imponência do Vaticano e do Museu de mesmo nome. Não tivemos palavras para expressar a beleza, genialidade e perfeição das pinturas de Michelangelo na Capela Sistina. Viajamos no tempo, vendo as ruínas da Roma Imperial e imaginando como seria no seu auge. 

De lá, viajamos por Israel quase todo. Ah, como descrever tanta emoção? Israel foi uma surpresa incrível. A maioria das pessoas imagina Israel como um lugar meio desértico, talvez antigo, traumatizado e estressado por causa das guerras e atentados terroristas, com uma vida dura e sem graça.

O que vimos foi um país jovem, energético, vibrante, com uma população orgulhosa do que construíram, trabalhando na direção do progresso e vivendo quase que normalmente, como em qualquer outro país moderno. Vimos uma economia e turismo a todo vapor, com gente de várias nacionalidades, línguas, credos e raças se misturando nas ruas, nos lugares sagrados, nas lojas.

Vimos ortodoxos com suas roupas pretas e barbas compridas. Vimos jovens nas praias de bikinis e sungas. Vimos árabes vivendo lado a lado com judeus e cristãos. Vimos sinagogas, igrejas, mesquitas, lojas, bares e shopping centers. Vimos garotos com uniforme do exército, segurando sub-metralhadoras, sentados no ponto de ônibus aguardando a condução para casa. Vimos até um centro de Yoga no meio do deserto!

Israel não é nenhum paraíso, assim como o Brasil ou os EUA não o são: vimos também um país com seus contrastes e dilemas internos - características das democracias, tentando achar um equilíbrio entre secularidade e religiosidade, entre a diplomacia e a manutenção da segurança interna. O israelense vive uma dicotomia entre o desejo de paz e a necessidade de segurança.

Viajar por Israel é uma experiência única, pois em poucas horas você pode cruzar o país todo. Entretanto, para realmente aproveitar e conhecer bem, acho que meses (ou talvez anos) seriam necessários. Como tínhamos apenas dias, tivemos que fazer que nem menu degustação, provando um pouquinho de cada prato.

E que cardápio Israel serviu: 2 mares - Mediterrâneo e Vermelho (ou 4 se contarmos com Mar Morto e Mar da Galiléia que não são mares realmente), 2 desertos (Negev e da Judéia), 2 fortalezas imponentes (Massada e Nimrod), 1 cratera "lunar" (Ramon), várias praias lindíssimas (com destaque especial para Netanya), colinas e montanhas de cartão postal (Golan), e muito mais, tudo servido com muito falafel e humous deliciosos.

Mas, apesar de Israel ter várias cidades de importância histórica e religiosa, nada se compara a Jerusalém. Jerusalém é aquele prato principal, que é o centro e o ponto alto da refeição. É um prato que deve ser apreciado com vagar e com todos os sentidos, absorvendo seus inúmeros (e às vezes contrastantes) sabores.

Viajar por Israel foi uma experiência que vai ficar por toda a vida, que deixou uma saudade sentida todos os dias nestes 4 meses desde que voltamos. Deixou a gente satisfeito, mas com aquele gostinho de quero mais. Nos deu uma melhor idéia dos desafios e ameaças que o país enfrenta e uma maior admiração à sua população.

Enfim, tudo que é bom dura pouco, as férias acabaram e voltamos ao batente. Mas, voltamos felizes, alegres, com horizonte e percepção expandidos.

Agora, é reviver relendo o blog, revendo as fotos, recordando lugares, momentos e sensações, mas sempre com o otimismo e a esperança de quem sabe um dia voltarmos a Israel ou conhecermos outros lugares tão encantadores.

Foi uma viagem escrever cada linha, escolher cada foto, relembrar cada detalhe que, em conjunto, compuseram os artigos publicados. Eu não poderia terminar estes Diários sem agradecer a todos aqueles que me incentivaram a escrever antes e durante a elaboração destes artigos, através de comentários, elogios e correções. Meu muito obrigado e espero que vocês tenham curtido esta viagem também.

Até a próxima!


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quinta-feira, setembro 06, 2012

Diários de Viagem: 16 - Voltando para casa

Acordamos na madrugada de sábado desanimados, não só pela hora, mas principalmente porque estava chegando a hora de irmos embora, significando o começo do fim de uma viagem que não queríamos que acabasse. Tínhamos dormido pouco, talvez por termos comido demais no jantar, talvez pela ansiedade da viagem ou, mais provavelmente, pelas duas coisas.

Olhando pela janela do hotel, estava tudo escuro ainda e até a rua, que sempre tinha um movimento intenso de carros, estava relativamente quieta. A praia, obviamente estava vazia (não tinha ninguém jogando frescobol!). Nos arrumamos e nada do café da manhã que havíamos pedido na véspera. Não podíamos ficar esperando pois tínhamos que chegar cedo no aeroporto, que ficava a cerca de 30 minutos, já que recomendam se apresentar com 3 horas de antecedência e ainda tínhamos que devolver o carro.

Descemos com a bagagem para fazer o checkout. O interessante é que o hotel tinha um elevador específico para o Shabat. Não consegui entender a lógica. Vai ver que esse elevador não era judeu. O cara que estava atendendo no balcão era o mesmo a quem tínhamos pedido o café da manhã há algumas horas. Não sei se por conveniência ou incompetência, parecia que ele havia sido acometido de amnésia, pois reagiu como se nunca tivesse me visto ou falado comigo e ficou olhando para mim com uma cara meio que de espanto. A muito custo, "lembrou" que o café da manhã estava lá - na portaria do hotel, em caixas do tipo "para viagem" (nesse caso, acho que literalmente).

Rejeitamos (para surpresa dele) e fomos pegar o carro. Alguns minutos antes de descermos, quando ainda estávamos no quarto, Patricia havia comentado que achava que tinham trazido o carro errado. Ora, nosso quarto estava num andar alto, estava escuro lá fora, não dava para ver direito e o carro lá embaixo poderia ser o nosso ou de alguma outra pessoa. Mas não é que ela estava certa? Por incrível que pareça (ou não), os patetas do Crowne Plaza trouxeram para o Herods o carro errado! Será que para ser contratado para trabalhar num hotel em Tel-Aviv tem que ter QI de ameba? Viajamos por Israel durante vários dias, passando por cidades grandes e pequenas e em nenhuma testemunhamos tanta incompetência como nesses dois hotéis (luxuosos e caros) de Tel-Aviv!

Finalmente trouxeram o carro certo e lá fomos nós a caminho do aeroporto. Tel-Aviv dormia ainda e não pegamos trânsito. O ar da madrugada estava meio frio, mas agradável. Passamos pelas ruas olhando e "nos despedindo" de Israel. Chegar lá foi fácil, mas uma vez dentro do aeroporto rodamos muito, perdidos, para achar onde abastecer o carro e onde ficava o estacionamento da locadora. Será que nenhuma mente brilhante pensou em colocar no mapa que a locadora dá ou nos papéis de aluguel instruções de como chegar lá e devolver o carro?

Por sorte estávamos adiantados e depois de muitas voltas e de pedir informações algumas vezes, conseguimos. Na hora de devolver, esperava que fossem inspecionar o carro para verificar na minha frente se havia danos, mas ninguém nem olhou, o que me deixou preocupado. No escritório, pedi o recibo confirmando o total que ia ser debitado do cartão, como é praxe nos EUA, mas disseram que o recibo seria emitido pelo escritório de Jerusalém e enviado para mim. Para encurtar uma história que só terminou mais de um mês depois da nossa volta, o recibo nunca chegou, cobraram no cartão mais do que deviam e tive que batalhar muito até corrigirem. Não sei se toda locadora é assim em Israel, mas fica aqui uma dica: evitem a Budget se um dia forem alugar carro lá.

Entramos numa van da locadora que nos levou para o terminal de embarque. Fomos para o balcão da British (nosso vôo era via Londres) e mais um problema: apesar de não termos comprado quase nada, a mulher disse que estávamos com excesso de cerca de 4 kg (e ela não estava se referindo à minha barriga!). Então foi aquela cena de aeroporto que odeio: abrimos as malas no meio do saguão e passamos algumas coisas para as mochilas que estávamos levando como bagagem de mão, satisfazendo a sádica da funcionária da companhia aérea.

Vencido este obstáculo, continuamos para o próximo: fila enorme para passar as malas no Raio-X. Lógico que uma das nossa malas caiu na malha fina e foram abrir, mexer, cheirar, até se darem por satisfeitos. Começamos a desconfiar que entrar em Israel era fácil, difícil era sair...

Despachadas as malas, o tempo já estava ficando meio curto e fomos direto para a fila da segurança. Aí foi a vez das mochilas passarem no Raio-X. Não satisfeitos e talvez por eu ter um monte de fios altamente perigosos (cabo USB, headphones, carregador de celular), me "convidaram" para uma sala separada, deixando a Patricia preocupada se algum dia ela me veria novamente. Depois de passarem a mochila de novo na máquina, tirarem tudo de dentro e fazerem mil perguntas, esse temido terrorista que vos fala foi liberado, sem ter sido posto no pau-de-arara ou sofrido waterboarding.

Para comemorar o fato de termos completado a maratona são e salvos, fomos para o free shop torrar os nossos últimos shekels e de lá para o portão de embarque. Desta vez deu para vermos um pouco melhor o terminal do aeroporto, que é bem moderno.

Decolamos com o dia claro, observando do alto o belo país à beira do Mediterrâneo, já com saudades de Israel, dizendo um "até breve" esperançoso de um dia podermos voltar. O vôo, como sempre, estava cheio mas acho que não foi dos piores, já que não lembro muito, exceto minha habitual dificuldade de dormir em avião. Pelo menos desta vez não serviram sanduíche de frango com porco.

Chegando em Londres, tínhamos algumas horas até pegar o vôo da American para Nova Iorque então fizemos toda aquela viagem (andar, passar pela segurança, pegar ônibus, andar mais um bocado), a mesma da ida, mas agora em sentido inverso, entre os terminais do Heathrow, para ficarmos algumas horas na sala vip. De lá, repetimos tudo de novo, até o terminal do nosso vôo.

O vôo para NY foi tranquilo, deu até para ver uns filmes e chegamos mais ou menos no horário, o que significava uma espera de quase 6 horas para o vôo final para Rochester. Passamos até rápido pela imigração, pegamos as malas e fomos para o terminal da JetBlue (leia-se mais caminhada, esteira rolante, trenzinho e caminhada) e descobrimos que não podíamos despachar as malas ainda porque era muito cedo! Ficamos mofando lá, observando umas figuras muito estranhas que estavam embarcando em vôos para a América Central, até conseguirmos fazer o check in e despachar as malas.

Aeroporto é um prato cheio para quem quiser estudar comportamentos, hábitos sociais, etc. Tem sempre alguém berrando no celular, gente vestida de forma "estranha", famílias ansiosas aguardando alguém ou tristes se despedindo, funcionários dando uma de "otoridade", criança chorando... É um micro-cosmo da humanidade.

Livres das malas fomos para a sala vip, que obviamente ficava em outro terminal (caminhada, esteira rolante, trenzinho, caminhada). Lá relaxamos, comemos e bebemos por algumas horas até fazermos tudo de novo (idem) de volta para o terminal da JetBlue. Àquela altura do campeonato, já estava imaginando os projetistas dos aeroportos reunidos numa sala em volta de uma mesa com vários desenhos, discutindo como bolar aeroportos em que as pessoas tivessem que andar muito o tempo todo, independentemente do que fossem fazer ou para onde estivessem indo. Deve ser parte de um plano global de combate à obesidade.

O vôo da JetBlue foi o melhor de todos, já que tinha as poltronas mais espaçosas e confortáveis e durava cerca de uma hora. Chegamos em Rochester mais de 24 horas depois de termos saido do nosso hotel em Tel Aviv. As malas, por incrível que pareça, chegaram também e mais ou menos inteiras. Marcelo veio nos pegar no aeroporto e, exaustos, chegamos em casa.

No próximo e último capítulo, conclusão.

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sábado, setembro 01, 2012

Diários de Viagem: 15 - Relaxando em Tel Aviv

Depois de toda a confusão criada pelo hotel no dia anterior, só queríamos saber de relaxar e aproveitar o nosso último dia completo em Israel. Assim, tomamos o café da manhã e fomos para a praia.

A rua da praia chama-se HaYarkon e tem um tráfego de carros constante, pesado e em velocidade. Para atravessar, há pontos específicos, alguns passando por cima da pista. Junto da areia, distante de onde os carros passam, há um calçadão (eles chamam de promenade). A areia lembra muito as praias do Rio, branca, fina e àquela hora ainda não estava muito cheia. Ficamos à esquerda do hotel, pois bem em frente fica a marina. O sol estava bastante forte. A água lembrava a praia de Netanya, já que era bem rasa na beira e tínhamos que andar bastante até poder mergulhar, mas estava um pouco mais fria. Entretanto, passado o impacto inicial, estava bem agradável.

Vista aérea da região de Tel Aviv em que ficamos (clique para ampliar)

Aos poucos a praia foi enchendo e mais e mais jogadores de frescobol foram tomando conta da areia. Pelo visto frescobol é a mania nacional em Israel. Muita gente jogando, a bola voando para tudo quanto é canto, atingindo as pessoas, mas ninguém reclama e o policiamento também não liga. É o velho ditado dos incomodados que se mudam. Por sorte, não fomos atingidos pelos "mísseis"e sobrevivemos, mas chegava a ser engraçado ir para a água, nadar até longe e à distância só ouvir aquele ploc-ploc constante das bolas batendo nas raquetes. Outra coisa que já havíamos notado em Israel é que se fuma muito, em qualquer lugar e a praia não era exceção.

Depois entrou na água um grupo aprendendo a surfar, vestidos com aquelas roupas de neoprene, pranchas infláveis (!) e instrutor. Como a praia de Tel Aviv praticamente não tem ondas, era algo como tentar aprender a surfar na praia de Botafogo! Mesmo assim teve neguinho caindo direto... 

Portanto, a praia de Tel Aviv é ótima, com areia branca, águas calmas e cristalinas, sol maravilhoso, mas se a idéia é relaxar, esqueça. Aos poucos a praia ficou lotada, porque era sexta-feira e a maioria das escolas e empresas fecham por volta de 2 da tarde, por causa do Shabat. Então a galera toda vai para a praia...

Depois de algumas horas, o sol estava implacável e nem com protetor solar estava dando para eu aguentar (Patricia não tem esse problema). Então fomos embora para a tal sala vip do hotel, onde beliscamos um pouco já que iríamos jantar relativamente cedo no Crowne Plaza.

Nosso plano inicial era ir até Yaffo (Jaffa) para conhecer o lugar, mas não ia dar tempo. Banho tomado, fomos bater perna pelas ruas próximas e comprar as poucas encomendas que tínhamos recebido. Andando por Tel Aviv, observando a disposição e aspecto das ruas e lojas, principalmente pela Rua Ben Yehudá (espécie de Visconde de Pirajá de lá), tivemos a sensação de estarmos andando em Ipanema ou Leblon, apesar de boa parte do comércio já estar fechado por causa do Shabat e dos prédios serem mais baixos, menos grudados uns nos outros e não ter tanto ônibus. É interessante notar como quanto mais cosmopolitas as cidades, mais elas se parecem.

Praticamente só havia restaurantes e bares abertos. Passamos por praças, ruas movimentadas, ruas calmas e prédios residenciais. Achamos um mercadinho aberto (que estava bem cheio) e conseguimos comprar o que faltava. Voltamos para o hotel para nos arrumarmos para o jantar. A perspectiva de ter que ir outra vez no Crowne Plaza não agradava, mas fomos assim mesmo.

Chegando lá, começou a confusão de novo. Nosso nome não constava na lista de convidados e ficou um certo mal estar, como se estivéssemos tentando penetrar. O gerente com que falamos no dia anterior não estava de serviço. Quase fomos embora, mas acabaram nos deixando entrar assim mesmo. Mais tarde descobrimos que quem nos salvou foi o bell boy do hotel (aquele cara que fica na recepção e carrega mala, chama taxi, dá informação), que na véspera tinha acompanhado o nosso drama todo e se solidarizado conosco: quando o pessoal do restaurante foi na recepção verificar o nosso nome na lista de convidados ele intercedeu a nosso favor. Para vocês verem: o bell boy foi mais eficiente no atendimento ao cliente do que todo o corpo gerencial do hotel...

Apesar do aborrecimento, o jantar valeu a pena. O salão tinha vista para a praia e não estava muito cheio (na verdade fomos uns dos primeiros a chegar). Havia uma variedade enorme de pães (inclusive vários tipos de chalás - pão típico do Shabat), saladas, sopas, pratos quentes e sobremesas, para buffet de churrascaria nenhum botar defeito. O atendimento, não sei se por causa da confusão inicial, foi ótimo.

Foi difícil resistir às sobremesas, cada uma melhor que a outra, com bolos, tortas, mousses, doces, etc. Saímos de lá mais que satisfeitos e fomos andar um pouco pela calçada da praia para fazer a digestão. Voltamos então para fazer as malas e a idéia era dormirmos cedo (o que não conseguimos depois de ter comido tanto e talvez pela expectativa da viagem de volta), pois no dia seguinte teríamos que estar no aeroporto por volta de 4 e meia da manhã. Aproveitamos para avisar no Crowne Plaza para trazerem o carro cedo (já que ele tinha ficado no estacionamento deles) e no Herods marcamos para levarem o café da manhã no quarto.

Conversando com um outro funcionário no Crowne Plaza, descobrimos o real motivo de terem tentado transferir a gente para o hotel no centro da cidade: quando fiz a reserva, usei um link especial para funcionários da HP, onde trabalho, pois há um acordo de tarifas entre a HP e a rede Crowne. O hotel estava com overbook e, vendo o nome da HP, eles acharam que a minha viagem era a trabalho e que eu não me importaria de ficar no centro. Ora, eles inferiram e decidiram por mim, sem sequer me consultar e ainda por cima não admitiram o erro, inventando a desculpa do "sistema". Um absurdo!

Infelizmente, as trapalhadas dos hotéis não terminaram, mas isto é assunto do dia seguinte e, portanto, para o próximo artigo.

Veja as fotos tiradas em Tel Aviv durante o dia, clicando aqui.

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domingo, agosto 26, 2012

Diários de Viagem: 14 - Misticismo, Beleza, Emoção e Aborrecimento

Depois de na véspera termos explorado a região das Colinas do Golan, era hora de arrumar as malas e seguir em frente, mais uma vez com pena de ir embora. O dia, como sempre bonito, prometia muitas atrações interessantes que, como vocês vão ler adiante, geraram muitas emoções, boas e más. Mas, uma coisa de cada vez e vamos começar do começo.

Caminho do dia, começando em Ramot e terminando em Tel-Aviv


O nosso primeiro destino era a cidade mística de Tsfat (ou Tzfat, ou Safed, etc.), na Galiléia. Esta cidade, que segundo a lenda foi fundada por um dos filhos de Noé, é a mais alta de Israel por estar a 900 metros de altura. É considerada mística porque muitos dos rabinos e estudiosos cabalistas que fugiram da Inquisição na Espanha se estabeleceram em Tsfat, tornando a cidade o centro da Cabala, imagem reforçada por alguns acontecimentos que muitos julgam ser milagrosos, alguns bastante recentes.

Entretanto, quem ler a história da cidade, verá que ela é muito trágica, tendo sido vítima de várias guerras e conquistas por povos diferentes (que em geral tinham uma coisa em comum - a matança de judeus), de alguns terremotos que destruíram bairros inteiros e até mesmo de doenças que mataram boa parte da população da época. Mais recentemente, em 2006, a cidade foi alvo constante de foguetes disparados pelo Hezbolah no sul do Líbano.

Como levaríamos cerca de 45 minutos do hotel em Ramot (letra A no mapa) até Tsfat (letra B), acordamos cedo, tomamos o café da manhã, nos despedimos dos donos do hotel e pegamos a estrada.

Como vocês acompanharam, até agora tínhamos feito tudo sozinhos: elaboramos o nosso próprio roteiro, selecionamos o que ver, onde ficarmos hospedados, quanto tempo passarmos em cada lugar, sem ajuda de excursões ou guias. Mas, quando estávamos pesquisando sobre Tsfat, lemos vários comentários dizendo que a cidade seria melhor explorada com alguém que a conhecesse bem e soubesse onde ir, principalmente tendo pouco tempo disponível, já que pretendíamos passar apenas 3 horas lá, pois ainda tínhamos outras cidades para visitar. Assim, antes mesmo de partirmos para Israel, decidimos contratar uma guia, que estava com excelentes referências e depoimentos de clientes anteriores.

Nos correspondemos por e-mail e ficou acertada a data e o local em que nos encontraríamos em Tsfat. Ela nos mandou uma explicação super detalhada de como chegar lá, que funcionou perfeitamente, apesar do caminho de rato que tivemos que fazer pelas estradas estreitas e curvas da região. Chegamos na hora marcada e ela já estava a nossa espera.

A guia, chamada Aviva, é uma senhora de uns 70 anos de idade, muito ativa e falante. Americana, mora em Israel desde a década de 50 e é guia licenciada (coisa levada muito a sério em Israel, requerendo muitos cursos e certificações), conhecendo tudo e todos em Tsfat, onde mora.

Ela entrou no nosso carro e indicou para onde deveríamos seguir para estacionar. Chegando lá, deixamos o carro e fomos caminhar pelas ruas estreitas de Tsfat, muito bem cuidadas, com várias lojinhas e muitas coisas artísticas. A primeira parada foi uma loja de velas. Ora, você deve estar pensando: que coisa mais sem graça! Mas, essa era uma loja de velas especiais, verdadeiras esculturas em cera. Cada uma mais fantástica que a outra. Logicamente, depois de muita indecisão sobre o que escolher, acabamos comprando algumas. Não deixem de ver as fotos (link mais adiante).

Em seguida, nos embrenhamos pelo labirinto de ruas da cidade, até sairmos na sinagoga Ari Ashkenazi. Apesar do nome, a sinagoga original, do século 16, era sefaradi, tendo sido construída em homenagem ao rabino sefaradi Isaac Luria (conhecido com o Ari - o Leão). O prédio atual foi construído após o original ter sido destruído pelo terremoto de 1837. A sinagoga é famosa não só pelo ilustre nome, mas também por talvez ser a sinagoga mais antiga ainda em funcionamento em Israel, além do colorido e originalidade da decoração da arca onde fica a Torah e pelo fato de que um milagre teria acontecido lá.

Na guerra de 1948 os árabes lançaram uma bomba que caiu no pátio defronte a sinagoga. Os estilhaços da bomba voaram por todo canto na sinagoga, que estava cheia, mas ninguém foi atingido. A Aviva contou que as pessoas estavam dentro da sinagoga rezando, pois era sexta-feira (Shabat). Há um momento nas orações do Shabat em que as pessoas se curvam para a frente, em sinal de respeito. Isto dura talvez um ou dois segundos. No exato momento em que as pessoas se curvaram, um estilhaço entrou no salão, passou por cima das pessoas curvadas e furou a parede. Nas fotos, mostro o buraco deixado na parede. Lenda? Milagre? Coincidência? Deixo cada um decidir...

A sinagoga estava muito cheia, pois além do entra e sai de turistas, um Bar Mitzvá estava em andamento (era quinta-feira). Saindo da sinagoga, continuamos caminhando pelas ruelas estreitas de Tsfat, com a Aviva à frente, surpreendentemente em passos rápidos, contando sobre a história e fatos da cidade. Entramos em uma galeria de arte com esculturas muito bonitas (e caras) e passamos por uma rua em que estava se apresentando um grupo de Klezmer (grupo musical, normalmente de judeus ortodoxos). Tsfat é a capital mundial de Klezmer e sedia o Festival Anual de Klezmer.

Continuamos até outra sinagoga antiga, a Joseph Caro. Esta também foi reconstruída depois do terremoto e tem Torahs de 200, 300 e 500 anos de idade, além um armário de escritos muito antigos. A sinagoga é mantida desde o começo do século 20 por uma mesma família, com recursos de doações e da renda de uma lojinha anexa, de artigos religiosos.

A seguir, fomos visitar uma fábrica de uma família que por gerações vem produzindo queijo de cabra. Havia muitos tipos, com direito à prova e Patrícia comprou alguns. Aproveitamos para tomar um sorvete caseiro. 

De lá continuamos passeando pela cidade, até chegarmos a outra sinagoga antiga, do século 15, chamada Abuhav, em homenagem a outro rabino cabalista sefaradi, Isaac Abuhav. O terremoto destruiu esta também, restando apenas uma parede, que foi preservada na reconstrução. Como o antigo Templo, a entrada externa (da rua) e a interna (da sinagoga mesmo) são separadas por um pátio. Esta sinagoga tem uma disposição interna muito peculiar, comum às sinagogas sefaradis da época, muito ampla e bonita, apesar de simples (não deixe de ver as nossas fotos). Os elementos decorativos e as paredes tem vários detalhes, cada um com um significado (alguns cabalísticos), que não vou detalhar aqui para não tornar este blog muito chato, mas quem quiser saber mais, pode ir neste site (em inglês).

Esta foi a última sinagoga que visitamos em Tsfat. Em seguida, entramos no bairro dos artistas, com muitas lojas de artesanato. Vimos muitas coisas bonitas, mas ou eram muito caras, ou muito grandes, ou muito frágeis para levar na mala. Acabamos comprando um camelo antigo de metal, que hoje decora a nossa sala de estar.

Por sugestão do Jacques, desde Jerusalém eu vinha tentado tomar um suco de romã feito na hora. Estava difícil por não ser época de Romã. Mas, como Tsfat é a cidade dos milagres, consegui!

Bebendo suco de romã em Tsfat

Passamos pelo local onde a cidade foi defendida do ataque do exército árabe na Guerra da Independência em 1948, com paredes cheias de marcas de tiros. Conta a história que ali aconteceu mais um milagre: Tsfat na época era uma cidade com uma população de 1500 pessoas, majoritariamente de estudiosos idosos. Quando foi declarada a independência de Israel, o árabes inconformados atacaram em várias frentes, incluindo Tsfat. Havia na cidade 221 judeus com idade para lutar, além de mais 136 que vieram ajudar. O exército árabe contava com 10700 homens que, além da vantagem numérica, estavam mais bem armados. A arma principal dos judeus era uma peça de artilharia (morteiro) "caseira" chamada Davidka. A Davidka fazia muito mais barulho do que estrago. Por coincidência (ou não) quando os judeus começaram a atirar com a Davidka, caiu um temporal fortíssimo sobre a região. Já há algum tempo corria rumores entre o exército árabe de que Israel havia conseguido a bomba atômica. Com o barulhão causado pela Davidka e o simultâneo temporal, o exército árabe fugiu em pânico achando que era a bomba atômica e Tsfat se salvou!

Seis Davidkas foram fabricadas no total e hoje há em Israel várias ruas, praças e monumentos em homenagem às Davidkas. Uma delas se encontra em exposição em uma praça de Tsfat, mas não lembro de termos passado por ela. 

Nossa caminhada por Tsfat já durava quase 3 horas e estava chegando ao final. Visitamos outra galeria de artes bem grande, quase que um museu, e nos despedimos da Aviva, que nos explicou como chegar ao nosso carro, já que o marido dela vinha busca-la. Logicamente, nos perdermos, mas depois de ziguezaguearmos um pouco, achamos. Veja as fotos de Tsfat clicando aqui.

Seguimos para a costa, rumo a Rosh HaNikra (letra C no mapa acima), que é o ponto norte mais extremo de Israel, na fronteira com o Líbano. Levamos cerca de uma hora até lá, deixando as belas colinas para trás e voltando para o visual do Mediterrâneo. Nosso objetivo era visitar as famosas grutas no mar.

Ao chegarmos, tinha uma verdadeira frota de ônibus de excursão estacionados. Compramos os ingressos e ficamos esperando pelo teleférico que nos levaria para o nível do mar, já que estávamos no que parecia ser o alto de um desfiladeiro de rochas calcárias brancas, como giz. Havia turistas de várias nacionalidades, incluindo muçulmanos com as mulheres cobertas da cabeça aos pés, a despeito do forte calor.

A descida pelo teleférico é rápida, mas a vista do Mediterrâneo, como sempre, é muito bonita, dando para ver várias cidades na costa israelense. Imagino que algumas delas tenham sido Akko e Haifa, mas não tenho conhecimento suficiente para afirmar.

Ao chegarmos embaixo, entramos por um túnel, que tem uma história interessante: durante o domínio britânico, durante a segunda guerra mundial, os ingleses construíram dois túneis através das rochas de Rosh HaNikra, ligados por uma ponte sobre as grutas, para criar uma estrada de ferro entre Cairo a Istambul, permitindo assim o suprimento das tropas inglesas. Anos depois, em 1948, na expectativa de um ataque do Líbano, a ponte foi destruída pela Haganá (exército de Israel), na operação "Noite da Pontes", a maior e última operação da Haganá antes da independência, quando 11 pontes ligando Israel ao países árabes foram destruídas. Hoje, a estrada de ferro ainda é usada na parte israelense, terminando ao sul de Rosh HaNikra, em Naharya, enquanto a parte do Líbano em diante foi desmantelada. O túnel que levava ao Líbano foi selado.

Dentro do túnel, há um "cinema" onde assistimos a um vídeo contando a história do local, desde os tempos antigos. Depois, entramos no caminho (bastante escorregadio por causa da maresia) que desce ainda mais, levando às grutas, chegando praticamente ao nível do mar. As ondas entram pelas grutas e estouram contra as rochas, fazendo um barulho estrondoso e espirrando água. São várias grutas e em alguns lugares há umas aberturas, como se fossem "varandas", de onde se vê a água muito azul e cristalina do mar.

Depois, subimos na rocha, de onde se tem uma vista desimpedida para o mar (como no Arpoador) e a costa de Israel. Não tem como expressar em palavras a beleza, portanto veja as fotos, no link a seguir.

Pegamos o teleférico de volta e fomos tirar mais umas fotos lá em cima, de onde se vê o arame farpado, o muro e guarita que separam Israel do Líbano. Imagino a tensão que deve pairar no ar quando o Hezbolah lança foguetes do Líbano para Israel...

Veja as fotos de Rosh HaNikra clicando aqui.

De Rosh HaNikrá descemos pela costa, até Haifa (letra D no mapa lá em cima). Mais uma vez, o trânsito entre Akko e Haifa estava muito ruim e só piorou na entrada de Haifa. Chegamos lá mais tarde do que planejávamos, o que inviabilizou a visita ao Jardins Bahai (veja na internet fotos, pois parece muito bonito).

A ida a Haifa tinha um motivo muito especial: foi a cidade onde meu pai nasceu e viveu até se mudar para o Brasil. Iríamos conhecer o prédio que minha avó tinha, onde toda a família vivia. O GPS dessa vez não decepcionou e chegamos direitinho, estacionando em frente ao prédio. Apesar de na vizinhança ter uma espécie de mercado, com várias lojas de frutas, verduras, peixes, etc. a rua era tranquila. O nome da rua é Shemesh (Sol) e é meio ladeira (como quase todas em Haifa, que fica na encosta do Morro Carmel). A região parece ser modesta, com prédios baixos e bem cuidados, com vista para o enorme porto de Haifa (o principal de Israel).

O prédio obviamente é antigo, mas está bem conservado para a idade. Foi muito emocionante estar na rua onde meu pai deve ter brincado quando garoto, de ver o pátio do prédio onde ele dizia ter montando em um burrinho, e imaginar como teria sido a vida ali há cerca de 60-70 anos. Tiramos fotos e fomos caminhando para as ruas próximas, onde estava o mercado. Como mencionei, havia muitas lojas, a maioria de comestíveis, com as mercadorias expostas em balcões do lado de fora, num colorido similar ao que vimos no mercado Yehudá de Jerusalém. Entramos numa padaria, que parecia ter pães, biscoitos e bolos muito bonitos. Como estávamos com poucos Shekels e não aceitavam cartão, negociamos pagar em dolar e compramos algumas coisas, inclusive rosquinhas de gergelim quase iguais às que minha avó fazia (depois nos arrependemos de não ter comprado mais, pois estavam ótimas). Passamos também por um supermercado, onde fizemos mais algumas compras. Imaginei se meu pai havia feito compras nestes lugares também, a mando da minha avó, apesar que provavelmente as lojas na época eram outras.

Veja as fotos de Haifa clicando aqui.

Foi com muita emoção que demos uma última olhada no prédio e pegamos o carro, em direção ao nosso destino final do dia - Tel Aviv (letra E no mapa acima). O trânsito até que não estava dos piores e chegamos lá por volta de 6 da tarde. Nosso hotel, o Crowne Plaza, ficava de frente para a praia e esperávamos ser o mais luxuoso da viagem, que terminaria ali.

Deixamos o carro com o manobreiro e fomos fazer o check-in. Estávamos muito cansados, pois havia sido um dia muito longo. No balcão, notei logo que algo não estava certo, pois as duas atendentes começaram a conversar entre si em hebraico ao invés de simplesmente me dar a chave. Ai uma delas me disse que a nossa reserva era para o outro hotel da cadeia, no centro da cidade. Ora, eu tinha certeza que não, então mostrei para ela a cópia da reserva que eu tinha no meu celular. Este foi o começo de um aborrecimento enorme.

Ela chamou o gerente de Relações a Clientes. Demorou e quando chegou, ele veio com a história de que o "sistema" havia cometido um erro e transferido a minha reserva, e que o hotel estava lotado. Para completar, pasmem, ele "me informou" que o erro não tinha sido meu (puxa, obrigado!) e nem deles (é mesmo?). Eu tive que conter a Patricia neste momento, pois ela estava prestes a voar na jugular do idiota. Não aceitei e disse para ele que o "sistema" não era uma entidade amorfa, sem dono. O "sistema" era do hotel, portanto a responsabilidade de consertar o erro era do hotel, já que dois dias antes eu havia recebido uma confirmação do próprio "sistema" de que estava tudo certo e, ironicamente, dizia que nenhuma ação era necessária de minha parte. Além disso, todo hotel deixa sempre uns quartos de reserva, para situações inesperadas como essa.

Ele negou, dizendo que estava lotado e que o outro hotel seria bom, que teríamos transporte diariamente para ir e voltar à praia. Não aceitei e exigi que ou ele me arrumasse o quarto que reservei no hotel, ou nos colocasse em algum dos outros hotéis do lado, de mesma categoria, pela mesma tarifa que eu havia reservado. Ele disse que ia tentar, ofereceu um drinque no bar, que rejeitamos, pois apenas queríamos dele o quarto a que tínhamos direito e ele sumiu. Ficamos sentados no hall luxuoso do hotel, cansados, com a nossa bagagem do lado, fumegando de raiva.

De vez em quando ele aparecia para dizer que ainda não tinha conseguido nada, mas acho que era tática para nos cansar. Vendo que isso não ia dar em nada, pedi à Vivian, que estava nos EUA, para ligar para o atendimento a clientes do Crowne Plaza nos EUA e reportar o que estava acontecendo, pedindo providências.

Neste meio tempo, Patricia tinha ido ao banheiro e demorou a voltar. Só no dia seguinte ela me contou o motivo e descobri que vivo com uma terrorista: ela sabotou o hotel! Ela contou que no andar em que ficava o banheiro estava tendo uma festa e que colocaram flores decorando o banheiro. Ela pegou as flores, "plantou" nos vasos sanitários e decorou tudo com papel higiênico! Imagine a cena de surpresa e estupefato quando alguém foi ao banheiro e encontrou a bela decoração. Só de imaginar, dá vontade de rir...

A pessoa com quem a Vivian falou nos EUA confirmou que a nossa reserva estava correta, que o hotel não poderia fazer isso e que iria ligar para eles. Foi o que resolveu. Depois de algum tempo, um outro cara veio dizer que realmente ligaram dos EUA e que o problema estava resolvido: estavam em contato com o gerente do hotel do lado, o Herods, da mesma categoria, e que iriam nos transferir para lá. Pediram que fizemos o pagamento no próprio Crowne Plaza e nos ofereceram como cortesia o estacionamento gratuito, convites para o jantar de Shabat no Crowne, e acesso à uma espécie de sala vip no Herods, onde haveria comidas e bebidas à disposição.

Levaram nossa bagagem para o Herod's e andamos até lá, já que era pegado. Ao chegarmos lá, a recepção estava muito cheia e custamos a ser atendidos, o que irritou ainda mais. Para a nossa surpresa, ninguém sabia de nada! Ligaram para o Crowne Plaza duas vezes até tudo se acertar e finalmente fomos para o quarto. Nessa brincadeira, já era noite e nosso humor era péssimo.

O quarto era bom, com vista lateral para a praia, mas a água do chuveiro era ridiculamente fraca e o ar condicionado central não estava funcionando. Liguei para a recepção, informaram que estavam consertando e que deveria ficar bom na manhã seguinte (não ficou). Depois de um banho de pingos, descemos para a tal sala vip, onde comemos alguma coisa e fomos passear pela calçada da praia que, apesar da hora, estava bem cheia com gente jogando volei e pessoas sentadas nas mesas dos bares. 

Como estava escuro, tiramos apenas duas fotos que podem ser vistas clicando aqui.

Depois de um dia de misticismo de Tsfat, beleza em Rosh HaNikra, emoção em Haifa e aborrecimento em Tel Aviv, só nos restava ir dormir, pois o dia seguinte seria o nosso último dia em Israel.

No próximo capítulo, relaxando em Tel-Aviv.

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terça-feira, agosto 21, 2012

Diários de Viagem: 13 - Desbravando o Golan

Depois de uma noite de sono profundo no silêncio do hotel em Ramot, acordamos com mais um dia de sol. A região toda (Galiléia e Golan) é uma das mais bonitas e agradáveis de Israel, com campos férteis (coisa preciosa num país desértico), vegetação exuberante, riachos e montanhas.

Visitando esta região, a gente entende como ela é importante para Israel do ponto de vista geográfico, estratégico e econômico. As montanhas formam uma defesa natural nas fronteiras com Líbano e Síria. Os campos férteis permitem o plantio, essencial para a economia doméstica e exportações. A água, talvez o principal recurso, é vital, pois o Rio Jordão é praticamente a única fonte de água doce de Israel.

Como éramos os únicos hóspedes, o café da manhã estava nos aguardando na hora marcada. Ele foi servido no andar de cima da casa/escritório dos donos e foi bem simples, nada de mais. Conversamos um pouco com a dona, uma senhora simpática e retraída, enquanto o marido tinha uma personalidade mais "exuberante", meio casca grossa, mas boa gente também.

Como teríamos que pagar o hotel em dinheiro por causa da confusão que o hotels.com fez com a nossa reserva, ele sugeriu que fôssemos à uma cidade próxima, chamada Qatsrin (ou Qatzrin, ou Katzrin - essas variações de transliteração do hebraico são de enlouquecer GPS!), onde poderíamos sacar. Depois de tomarmos o café, andamos um pouco pela propriedade, muito florida e bem tratada e tiramos algumas fotos, que podem ser vistas clicando aqui.

Desbravando o Golan
Pegamos o carro e, de Ramot (letra F no mapa ao lado, que pode ser ampliado clicando nele) descemos na direção do Lago Tibérias (ou Mar da Galiléia, ou Lago Kineret). Paramos na beira só para "registrar" que estivemos lá, molhando os pés e as mãos, já que a "praia" mesmo ficava em Tibérias e não tínhamos tempo. O lago, famoso principalmente na fé cristã (pois foi onde Jesus foi batizado), é bem grande, com água clara e fundo de pedras. A água, que estava meio fria, vem das montanhas para o Rio Jordão que então desagua no lago.

De lá, pegamos a estrada rumo a Qatsrim (letra B no mapa). As estradas na Galiléia e no Golan em geral são estreitas, com muitas curvas, subidas e descidas, já que vão serpenteando entre as colinas. É um passeio muito agradável.

Qatsrim não era longe e chegamos rapidamente. É o maior assentamento judaico da região e, por isso, considerado "a capital do Golan", com cerca de 6700 habitantes. Por incrível que pareça, foi difícil acharmos uma vaga para estacionar e finalmente conseguimos, próximo a um pequeno shopping center, que tinha um supermercado, algumas lojinhas e uma agência do correio. Aproveitamos para despachar alguns postais, sacamos o dinheiro no próprio correio e fizemos algumas compras no supermercado. Foi interessante ver uma cidade pequena típica do interior de Israel.

De lá pegamos a estrada novamente, continuando rumo norte, para a fortaleza de Nimrod (letra C no mapa). Nimrod é uma fortaleza medieval, localizada a 800 metros acima do mar, construída em torno do ano 1229 pelos árabes, para se defenderem dos cruzados. Depois das cruzadas, ela perdeu a utilidade e aos poucos foi se deteriorando, tendo também sido bastante danificada por um terremoto no século 18. Hoje é um parque nacional.

Foi meio complicado chegar lá, porque o GPS se perdia e a gente ficava rodando. Passamos por alguns momentos meio estressantes, como por exemplo quando estávamos num trecho muito estreito de uma estrada de mão dupla, no alto de um desfiladeiro e vinha um caminhão enorme do outro lado, quase jogando a gente lá embaixo, ou quando o GPS nos levou para uma vizinhança árabe em que tivemos a sensação de sermos fuzilados com os olhares...

Depois de muito tempo perdidos e de quase termos desistido, finalmente conseguimos chegar. O visual lá de cima é fantástico, porque dá para ter uma vista de 360 graus do Golan todo, ou pelo menos boa parte dele, com suas muitas colinas.

As ruínas da fortaleza se estendem por uma área bastante grande, com muito sobe e desce de escadas. Nas construções que sobraram, nota-se sempre a preocupação com a defesa do local, evidenciada por janelas que são pequenas do lado de fora mas amplas do lado de dentro (para permitir vários arqueiros atirarem e não serem atingidos), corredores com saídas ocultas (para uma eventual fuga), cisternas subterrâneas (para garantir o abastecimento de água), além evidentemente de paredes e muralhas reforçadas.

Um fato interessante: Há um filme israelense (muito bom, por sinal), chamado Beaufort, sobre o Castelo Beaufort, que fica no sul do Líbano (na parte que durante um tempo foi dominada por Israel). Como não dava para filmar lá, a filmagem foi feita em Nimrod. Ou seja, Nimrod fez papel de dublê para Beaufort...

A fortaleza tem uma parte que é como se fosse uma fortaleza menor dentro da maior. Essa parte tinha uma construção mais alta no meio, como uma torre. Como já tínhamos subido e descido muito, a Pat não queria subir e então fui sozinho para fotografar e filmar lá do alto. A escadaria era grande e vinha descendo um grupo escolar de adolescentes israelenses na faixa de uns 13 a 15 anos de idade, naquela bagunça habitual. No meio do caminho, eles passam por mim, eu me encolho no canto para dar passagem e ouço dizerem em inglês: "Sejam bem vindos ao nosso país. Nós amamos vocês" e continuaram descendo, enquanto eu, pasmo, continuei subindo. Realmente Israel é um país de surpresas infindáveis...

Veja as fotos tiradas no lago Kineret e na fortaleza de Nimrod clicando aqui.

Vista aérea de Nimrod (clique na foto para ampliar)

Saindo de Nimrod, dirigimos para Banias, que ficava a poucos quilômetros (letra D no mapa). Banias é outro parque nacional, famoso pela sua cachoeira. Ao chegarmos na entrada do parque, fomos no guichê apresentar o nosso passe que dava direito ao ingresso. Aí o guarda/atendente perguntou se estávamos levando água e, ao respondermos que não, sugeriu que levássemos. Compramos então duas garrafas na lanchonete próxima. Podia ser até que ele ganhasse comissão, mas o conselho dele valeu: a caminhada pela trilha dentro do parque foi feita sob um sol escaldante, abafado. Apesar de ter bastante vegetação, talvez pela umidade, o calor era terrível.

A trilha era meio íngreme em alguns pontos, mas facilitava o fato de que em geral estávamos descendo. Aos poucos (depois de mais de meia hora andando), começamos a ouvir barulho de água ao longe. Aí a trilha virou escada e depois um caminho dentro da mata, o que aliviou o sol, mas aumentou a umidade. Parecia estarmos fazendo sauna. De repente, começamos a ver algumas corredeiras e quedas de água, achando que aquilo era a cachoeira. Fui tirando fotos e filmando, mas a medida que continuamos andando, o negócio não acabava, cada vez com mais corredeiras e quedas e começamos a desconfiar que a cachoeira mesmo ainda estava por vir.

Depois de um tempo, o barulho de água foi aumentando e aí sim chegamos à cachoeira. Muito bonita, forte e foi até difícil fotografar de perto devido aos respingos no ar. Por outro lado, considerando o calor, foi um bom refresco. A cachoeira é resultado de uma nascente no monte Hermon (o mais alto do Golan), que desce 3,5 km por um desfiladeiro até entrar no parque de Banias e formar a maior cachoeira de Israel. Essa nascente, 9 km depois da sua origem, encontra com o Rio Dan e juntos formam o Rio Jordão.

Por sorte, o caminho de volta era mais direto, ainda que subindo, e foi mais fácil voltar. Parece que tinha uma outra trilha que levava para mais uma cachoeira ou para a nascente desta, mas já estava tarde, além de não termos mais disposição para encarar mais uma trilha...Veja as fotos de Banias clicando aqui.

Cansados e com fome, pegamos o carro para irmos a um restaurante na beira do Rio Dan (mencionado acima), chamado Dag Al HaDan (Peixe no Dan). Ele ficava próximo (letra E no mapa acima), mas para variar, demoramos porque o GPS não achava. O que acontece em Israel é que os nomes das ruas e lugares são escritos em hebraico e quando transliterados para o nosso alfabeto, várias versões diferentes surgem, o que dificulta localizar no GPS. Para piorar, a maioria dos lugares tem um nome em hebraico, outro nome em árabe e muitas vezes um terceiro nome no nosso alfabeto. Por exemplo, a cidade de Acre chama-se Akko em hebraico e Akka em árabe...

Bom, depois de várias tentativas, finalmente chegamos. O restaurante é realmente escondido no meio da mata e ao estacionarmos ficamos na dúvida se era ali mesmo, porque do estacionamento só víamos umas casinhas, o rio, a mata e umas galinhas soltas correndo (resolvemos que não seria uma boa pedir um prato de frango). Mas, era lá mesmo. O ambiente é bem interessante: chão de terra, mesinhas na beira do rio, cercadas por árvores de copas altas. A especialidade: trutas de rio, criadas ali mesmo.

O garçom era bem jovem, mais ou menos da idade do Marcelo e, para variar, adorava o Brasil. Disse que tem um tio que mora em SP e que quando acabasse de servir no exército estava pensando em abrir um negócio com o tio no Brasil. Ele descreveu umas trinta formas em que serviam as trutas. Não lembro tudo, mas tinha frita, assada de vários jeitos, na brasa, defumada, etc. e com diversas opções de acompanhamentos. No guia de viagem em que achei este restaurante, o autor brincava dizendo que a truta que você comer provavelmente ainda estava viva enquanto você estacionava o carro...

Como em todo restaurante que se preza em Israel, ele trouxe um monte de aperitivos, que por si só já seriam uma refeição mas estávamos famintos, pois já passavam das 5 da tarde e não tínhamos almoçado. Depois vieram as trutas. Até eu que não sou muito chegado a truta gostei. Muito bem preparadas, molho (de amêndoas) excelente. Para completar, uma sobremesa maravilhosa: lava cake (bolo com chocolate derretido no meio) e sorvete.

Como não tiramos foto da comida, achei essa na Internet que é semelhante ao que foi servido

Foi uma refeição perfeita. O lugar é excelente, tranquilo, agradável. A nossa mesa era literalmente na beira do rio, com fundo musical da água rolando por entre as pedras. Apesar de estarmos cercados de mata, não havia insetos porque há uma tela gigantesca cobrindo tudo. O mais engraçado era ver os galos (muito bonitos) empoleirados no alto das árvores, cantando de vez em quando.

Satisfeitos, dirigimos por cerca de uma hora de volta para o hotel (letra F no mapa), curtindo a vista das colinas do Golan e depois do Lago Kineret, com o sol se pondo na direção dele. Veja as fotos do restaurante e do caminho de volta, clicando aqui.

Originalmente tínhamos planejado ir à noite em Tibérias, mas o cansaço não deixou e resolvemos encerrar mais um dia maravilhoso em Israel ficando no hotel e vendo as fotos do dia.

No próximo artigo, tour pela cidade mística de Tsfat e de volta à costa para conhecer Rosh HaNikrá e uma visita emocional à Haifa, antes de continuar para Tel-Aviv.

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segunda-feira, julho 23, 2012

Diários de Viagem: 12 - Netanya, Cesarea, Akko e Ramot

Para podermos ir à praia em Netanya, aproveitando o sol sempre presente, acordamos cedo e descemos para tomar café, pois tínhamos que fazer checkout ao meio-dia, além de termos muita coisa programada, já que iríamos continuar subindo a costa de Israel, visitando Cesarea e Akko (Acre) e depois ir para leste, próximo ao Mar da Galiléia.

Netanya - Cesarea - Akko - Ramot

O restaurante do hotel estava bem movimentado, com a idade média dos hóspedes em torno de uns 70 anos. Nos sentimos muito jovens. O sistema também era de buffet, mas não chegava nem aos pés do de Eilat, até porque o hotel era mais simples. Mas, deu para o gasto e fomos para a praia. Aí começaram as surpresas.

A rua da praia (como se fosse a Av. Atlântica do Rio) parece mais um parque, pois é toda ajardinada e muito bonita, com alguns prédios modernos, hotéis e restaurantes, além de vários elementos decorativos combinando com as palmeiras (ou seriam tamareiras?). Descobrimos então que estávamos num nível bem mais alto que a praia, pois ela estava bem la' embaixo. Para descer, pega-se um elevador! O maior luxo ir à praia de elevador!

O hall onde está o elevador é todo em piso de granito, muito bem decorado e nem parece caminho de praia e sim agência de banco. Pegamos o elevador (que é panorâmico) e saímos em outro hall do mesmo tipo. O movimento, talvez em função da hora e de ser dia de semana, era pequeno. Lá embaixo tem uma outra rua que parece ser apenas para acesso às vagas do estacionamento, pois praticamente não passava carro. A praia, tanto vista do alto, como já embaixo, é lindíssima, com o mar azul, a água transparente em alguns pontos e bem calma. O formato também é interessante fazendo vários "U", criando pequenas praias separadas. Havia também uma área semi-coberta com aparelhos de ginástica.

A praia foi o máximo. Tranquila, a água na temperatura certa, areia limpa, sol ótimo. Entrando na água, a gente teve que andar bastante para poder mergulhar, pois a beira é bem rasa. Foi pena não podermos ficar mais tempo (horas, dias, semanas!), mas aproveitamos bastante enquanto deu. Fiquei morrendo de inveja de uns caras pescando nas pedras do quebra-mar. Quem sabe um dia.

Voltando para o hotel, tomamos banho, fechamos as malas e fomos fazer checkout. O balcão estava bem cheio e custamos a ser atendidos (como de hábito), mas o senhor que nos atendeu foi muito simpático e ficou conversando sobre o Brasil, que ele admirava muito.

Quem leu direitinho o capítulo anterior, deve lembrar que mencionei que a luz do ABS do carro tinha acendido e apagado. Como ainda íamos viajar muito e nosso próximo destino seria o parque de Cesarea, onde diziam ser comum arrombarem carros com mala à mostra (estávamos com uma no banco de trás pois as duas não cabiam no porta-malas), resolvemos passar numa agência da nossa locadora que ficava a cerca de uma esquina do hotel.

Trocamos de carro, pagando extra e pegando um maior com porta-malas em que coube a nossa bagagem toda. Este carro estava em melhor estado que o outro, mas depois descobrimos que o acendedor de cigarros não funcionava, o que era um problema para carregar o celular que estava consumindo muita bateria por estar sendo usado como GPS. Por sorte eu tinha levado duas extras. De resto, o carro se comportou bem.

Fomos embora com pena. Netanya, que seria apenas um ponto para pernoitarmos, parecia ser muito mais atraente do que imaginávamos. Se um dia voltarmos a Israel, Netanya certamente seria um lugar em que gostaríamos de poder passar mais tempo. Portanto, fica aí mais uma dica de viagem: Netanya! Veja as fotos clicando aqui e garanto que você vai concordar.

Já estávamos bem atrasados no nosso roteiro e fomos para Cesarea, que não era longe. A sinalização, obras no caminho e o GPS não ajudaram muito a achar a entrada do Parque Nacional de Cesarea, mas depois de rodarmos um pouco conseguimos. Chegando lá, vimos que a preocupação com arrombamento de carros não parecia ter sentido, pois tinha gente tomando conta do estacionamento e ele era bem movimentado. Como Cesarea é parque nacional, usamos o passe que tínhamos comprado em Massada.

Vista aérea de Cesarea, com o anfiteatro (redondo) e
o hipódromo (retangular) bem visíveis
Cesarea era a capital administrativa de toda a região na época do domínio romano. Foi construída por volta do ano 25 AC por Herodes, que logicamente incluiu no projeto um palácio para ele. O nome original, Caesarea Marítima, foi dado em homenagem ao Imperador Augusto Cesar. A cidade chegou a ter 125 mil habitantes e deve ter sido muito imponente e bonita, pois ficava à beira mar. Há bastante ruínas, numa grande área, dando para ter uma idéia dos prédios, do estádio, do anfiteatro (que, parcialmente reformado, é usado hoje para shows), etc. Como quase todo lugar em Israel, passou também pelo domínio dos bizantinos, dos cristãos na época das cruzadas e dos muçulmanos, tendo então ruínas de um mosteiro bizantino, uma igreja cristã e uma mesquita muçulmana.

É um lugar interessante, mas talvez por termos antes visitado as ruínas em Roma, o impacto foi um pouco menor. Ficamos lá por cerca de duas horas e embora originalmente termos planejado visitar o aqueduto de Cesarea, que não fica no mesmo local, decidimos rumamos direto para Akko, em função do horário. Veja as fotos de Cesarea clicando aqui.

De Cesarea para Akko, tem que passar por Haifa. O trânsito não só em Haifa, mas antes e depois também, estava muito ruim, irritante. Muitos sinais e obras (parece que estão fazendo um pista para passar metrô de superfície). Finalmente chegamos a Akko, estacionamos o carro fora da cidade antiga e entramos a pé.

Vista aérea de Akko
Akko, também conhecida com Acre, da mesma forma que Jerusalém, tem duas partes, a cidade nova e a cidade velha que, assim como Jerusalém velha, é cercada de muralhas, com ruas de paralelepípedos, construções baixas e antigas e muitas ruelas, que fazem mais parecer um labirinto. É uma das cidades mais antigas de Israel.

Sinceramente, não gostamos muito de lá. A vista para a baía e para o mar é bonita, mas a cidade velha em si, para quem já esteve em Jerusalém, não acrescentou muito. Passamos por vários restaurantes e residências e nos perdemos no labirinto de ruas, passando por áreas que não eram exatamente convidativas, com os moradores nos olhando de forma meio atravessada. A impressão que passa é a de um lugar meio largado, mal tratado. Foi o único lugar em Israel que achamos que não valeu a pena...

De lá, pegamos o carro e fomos para a cidade nova, jantar em um restaurante chamado Mobarsham, de frente para o mar. A essa altura, estávamos famintos e o restaurante foi uma ótima opção: como sempre, trouxeram muitos aperitivos (pão árabe, humus, tabule, saladas, etc.) e a comida e o atendimento foram bons. Trouxeram uma sobremesa que não conhecíamos, mas que estava deliciosa. Parecia uma espécie de pudim de leite com água de flores e é chamado mouhallabie.

Depois, para ajudar a digestão, passeamos pela orla que é bonita e também tem algumas ruínas. Tiramos fotos e ficamos no carro vendo o sol se por no Mediterrâneo. As fotos tiradas em Akko podem ser vistas clicando aqui.

Seguimos então para a Galiléia, pois o nosso hotel era num lugar chamado Ramot, perto do Mar da Galiléia, também chamado de Lago Tibérias ou de Lago Kineret. Como vocês podem ver no mapa acima, saímos da costa e cortamos Israel de Oeste para Leste, na direção da fronteira com a Síria. A viagem levou umas 2 horas e passou por estradas com muitas curvas e subidas.

Ramot fica bem no alto, com vista para o Kineret, mas como chegamos lá pouco depois das 9 horas da noite, não dava para ver muito. O hotel, assim como o que ficamos na região do Mar Morto, ficava numa comunidade agrícola (moshav) e as acomodações eram praticamente casinhas independentes.

Não vimos ninguém e então batemos na porta do escritório, que era na casa dos donos. Eles nos receberam com surpresa, pois tinham sido informados que a nossa reserva havia sido cancelada pelo agente local do hotels.com, onde eu havia feito a reserva. O mais estranho é que dois dias antes eu havia recebido um e-mail do hotels.com confirmando a  reserva e dizendo que estava tudo certo. Por sorte, eles estavam totalmente vazios e puderam rapidamente preparar uma das casinhas. Só que eles não tinham como aceitar cartão de crédito (normalmente o site em que fiz a reserva debitaria do meu cartão e mandaria um voucher para o hotel, mas como cancelaram, o pagamento não foi feito). Combinamos então que no dia seguinte eu sacaria em dinheiro num caixa eletrônico e pagaria em espécie.

Passado o susto, fomos para a casinha, que era ótima, com uma cozinha, sala de estar, quarto e banheiro. Tinha 2 TVs e até hidromassagem. O silêncio era total e dormimos muito bem.

No próximo capítulo: desbravando o Golan.



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quarta-feira, julho 18, 2012

Diários de Viagem: 11 - Cruzando Israel de novo, de Eilat para Netanya

Recapitulando onde paramos (que nem novela): Dormimos em Eilat, acordamos cedo para fotografar o sol nascendo no MarVermelho, mas o sol não colaborou e se escondeu atrás das nuvens.

Depois de dormir mais um pouco, descemos para tomar o café da manhã, que era servido num salão defronte à piscina. Pena que não tiramos fotos: tinha tanta variedade de comidas e bebidas que mais parecia buffet de churrascaria. Vários tipos de pães, bolos e biscoitos, muitas saladas, frios, queijos, ovos de tudo quanto é jeito (e se ainda preparavam na hora se quisesse diferente), sucos, leites, chás, cafés, frutas. Em resumo, um salão enorme com mesas cheias de comida em volta.

Tinha muita gente, mas eles estavam repondo rapidamente o que acabava. Achamos um lugar do lado de fora, com vista para o mar e para a piscina. Se eu pudesse, ficava lá o dia todo... Mas, infelizmente, não cabia mais no estômago e resolvemos andar até a praia, que ficava um pouco depois do Observatório Submarino. A praia em si não era grandes coisas, pois a areia era meio dura e na água o chão era de pedras. Estava ventando bastante e a água bem fria, o que não deu ânimo para entrar. Molhamos só as mãos e os pés para podermos dizer que tínhamos entrado no Mar Vermelho (que não se abriu para passarmos).

Voltamos para o hotel, ficamos mais um pouco na piscina e subimos para tomar banho, fechar as malas e fazer o checkout. Veio um carrinho daqueles de golfe que mencionei e nos levou para baixo. O checkout foi rápido, deixamos as malas dentro do carro e fomos andando para o Observatório.

O Observatório tem praticamente duas partes: uma em terra, onde tem aquários diversos e outra no mar, onde você pode descer abaixo da superfície da água para ver o fundo do mar. Percorremos a parte em terra, vendo desde aquários gigantescos com tubarões, arraias e muitos peixes (inclusive vimos uma apresentação do mergulhador alimentando os peixes), como aquários menores com coisas mais "exóticas" como piranhas da Amazônia, ostras de pérolas, águas-vivas e até peixes que vivem em altas profundidades, no escuro. Havia muitos grupos escolares e estava bem movimentado. Foi interessante e educativo.

Depois, andamos pela ponte que liga à parte que fica no mar. Ventava muito, mas o visual era lindíssimo, como se estivéssemos num barco (algumas das fotos que coloquei no álbum do nosso hotel foram tiradas de lá). O Observatório é uma plataforma metálica com basicamente 3 níveis, ligados através de uma escada de metal, chegando a lembrar o interior de um navio: pouco acima do nível do mar, por onde a gente entra e tem um restaurante; bem no alto, de onde se tem uma vista panorâmica; e abaixo do nível do mar, no fundo. Esta é a mais atraente, pois permite visualizar os bancos de corais que ficam no fundo do mar e toda a vida em volta - peixes, crustáceos e os próprios corais, a água transparente e o fundo de areia branca. Pena que as fotos não fazem jus à beleza e à paz que o visual transmite. De qualquer forma, veja as fotos e filme do observatório clicando aqui.

O Rancho de camelos, em Eilat
De lá, voltamos para o hotel para pegar o carro e fomos num lugar na mesma rua que segundo a placa no caminho, seria um rancho de aluguel de camelos.

Ao chegarmos lá, estava fechado até 3 da tarde. Ora, como tínhamos ainda muito chão pela frente até Netanya, nosso próximo destino, não pudemos esperar e fomos embora sem andar de camelo mesmo. Mas, tiramos uma foto pelo menos para registrar...




De Eilat para Netanya
A viagem de Eilat para Netanya leva em torno de 4 horas, sem parar. Ela cruza de novo o Negev (dessa vez enchi o tanque antes de sair de Eilat), na direção de BeerSheva e depois vai para o litoral, na direção de Tel-Aviv e sobe para Netanya.

Como o nosso destino realmente era Cesarea e Akko, no litoral norte de Israel, nós tínhamos programado pernoitar em Netanya para não ficar tão cansativo. Pesquisando nos guias de viagem, Netanya parecia ser um lugar simpático, mas sem grandes atrativos.

Cruzando novamente o deserto,  vimos novamente tanques, placas alertando "camelos cruzando a pista" e depois passamos por muitas cidades. Chamou bastante atenção como Israel sendo um país seco e praticamente desértico tem tantas plantações e como as pessoas mantém tudo muito florido e bem cuidado.

A viagem desta vez não teve drama, mas o GPS se enrolou muito. Num determinado ponto, pegamos um pedaço da estrada na direção errada e quando fomos ver estávamos chegando na barreira na entrada da área sob controle da Autoridade Palestina, na direção de Hebron (veja mapa). Mais que rapidinho demos meia volta e voltamos!



Paramos algumas vezes, o que, associado ao GPS bêbado e ao trânsito em algumas partes (como na área de Tel-Aviv), fez com que levássemos mais do que 4 horas. Veja as fotos da viagem clicando aqui.

Chegamos em Netanya no começo da noite. O hotel ficava numa rua movimentada e conseguimos estacionar o carro meio que precariamente na rua, para podermos ir fazer o check in. Aí disseram para colocarmos no estacionamento atrás do hotel e passaram instruções de como chegar lá. Obviamente, não funcionaram e, depois de darmos várias voltas, entramos no que teoricamente seria uma contramão e estacionamos. Numa dessas voltas, a luz do freio ABS do carro acendeu por uns instantes, o que era preocupante já que ainda tínhamos muitos km a percorrer nos próximos dias.

O hotel era estilo antigo, como aqueles hotéis de Miami Beach. Por ser kasher, tinha muitos ortodoxos (que nem Miami). O quarto era confortável e limpo. A grande vantagem é que ficava a uma quadra da praia. Depois de conseguirmos subir com a bagagem, tomar banho e nos arrumarmos, fomos andar pelas redondezas. Tínhamos lido que havia uma praça (Ha'atzmaut Square) que era o "point"da cidade, com vários restaurantes em volta.

Fomos primeiro procurar uma drogaria, pois a Pat estava com uma reação alérgica no braço, pela exposição ao sol. No caminho, passamos por uma lanchonete que vendia caldo de cana feito na hora! Faltou só terem pão de queijo ou pastel de vento... Achamos a drogaria e compramos uma pomada. De lá, fomos para a tal praça, que estava em obras, mas que realmente era cercada de restaurantes com cadeiras na calçada. Como Netanya tinha tido muita imigração de franceses, notava-se nos cardápios a influência, o que era um bom sinal.

Depois de hesitarmos com tantas opções, sentamos em um restaurante que parecia bom. Nos deram o cardápio e disseram que viriam nos atender. Ficamos uns 10 a 15 minutos sentados sem que ninguém aparecesse. Como nossa paciência àquela altura já não era das maiores, não tivemos dúvida: levantamos e fomos para outro, onde fomos prontamente atendidos.

Jantando em Netanya
Trouxeram 10 (dez) aperitivos! Quase mandei cancelar a comida, porque só os aperitivos já matavam a fome... Estava uma noite agradável, com bastante movimento, mesmo sendo tarde.

Depois do jantar, demos uma circulada pelas banquinhas de alguns vendedores de artesanato que estavam na praça e fomos para o hotel, pois o dia tinha sido longo.

No próximo capítulo, uma agradável surpresa!






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terça-feira, julho 10, 2012

Diários de Viagem: 10 - Susto no Deserto e Eilat

Dormimos bem em Ramon. Uma das vantagens de cidade pequena é o silêncio que, juntamente com o nosso cansaço, funcionou melhor que Valium.

Descemos para o café da manhã, que era muito bom, com uma grande variedade de opções como frutas, cereais, pães doces e salgados, bolos, queijos, ovos feitos na hora ao gosto do freguês, muitos tipos de saladas, como é normal em Israel, etc. Era tanta opção que a gente ficava até com pena de não ter mais fome.

Eu ainda não tinha comentado isso, mas em todas as cidades por onde passamos, na Itália ou Israel, sempre deparávamos com brasileiros. Até quando estávamos boiando no Mar Morto, apareceu um! Ora, a gente imagina que estando em uma cidade pequena em Israel, com 5 mil habitantes e fora do circuito tradicional de turismo, seria um pouco mais difícil encontrar brasileiro. Quase. A gerente do hotel veio falar com a gente num português perfeito (até com sotaque nordestino), apesar de ser israelense. Ela contou que era casada com um brasileiro e morou muitos anos no Brasil.

Fizemos o checkout, pegamos o carro e fomos para uma rua próxima do hotel, onde havia um mirante que dava para a cratera. A cratera em si é tão grande (38 km de comprimento, 6 km de largura e 450 m de profundidade), que a gente ficou até em dúvida se aquilo que estávamos vendo era a cratera mesmo ou um vale. Subimos o mirante, que estava deserto. Ventava muito. Tiramos algumas fotos, pegamos o carro e fomos na direção da saída da cidade, onde havia outro ponto de observação da cratera.

Nesta área, fica o centro de informações turísticas, que estava fechado para obras. Paramos numa lojinha do lado, que vendia uns aromatizantes bonitos, para se pendurar em quartos, banheiros, etc. Descobrimos então que em cidade pequena era mais difícil achar gente falando inglês, mas conseguimos nos comunicar, ainda que com dificuldade, com a balconista da loja.

Na saída da cidade, há um acostamento de onde se tem uma boa vista da cratera, mas a principal atração eram os íbex, que vinham até comer na mão! Patricia (com a ajuda de alguns biscoitos) ficou bem popular entre eles...

Ficamos tão distraídos com os íbex, que acabamos esquecendo de abastecer o carro antes de sair da cidade. Só descobrimos isso quando já estávamos longe e então ficamos observando para ver se aparecia alguma cidade ou posto de gasolina no caminho. Só que a estrada desce pela cratera toda e entra pelo deserto do Negev. Por vários km não há absolutamente nada a não ser montanha e areia. O carro alugado parecia ser econômico, mas a incerteza de quando poderíamos abastecer começou a deixar a gente preocupado.

Caminho de Ramon à Eilat,
cortando o deserto
O Negev é uma imensidão e, como o deserto da Judéia, tem uma certa beleza misteriosa, com aquelas vistas infindáveis de areia e montanhas, que fazem a gente imaginar os acontecimentos relatados na bíblia e o quanto da história da humanidade foi testemunhada por aquelas montanhas. Apesar de ser muito quente, é um calor diferente, seco, que tem o perigo de desidratar facilmente, porque não dá muita sede. Ele é muito usado pelo exército israelense para manobras de treinamento. Vimos ao longe tanques, acampamentos de soldados e placas na estrada alertando para tanques cruzando a pista e áreas de tiro.  Mas, por serem áreas de segurança, não parecia ser uma boa idéia ir pedir gasolina...

Sem outra opção, continuamos seguindo na direção de Eilat. Depois de algumas horas, o tanque estava quase na reserva. Já estávamos nos imaginando sem gasolina, no meio do deserto, com pouca água e com um sol de rachar, sem ar condicionado. Não era uma perspectiva agradável.

De repente, Patricia viu uma entrada de algo que parecia uma fazenda. Resolvemos entrar. O local era de chão de terra/areia, com algumas construções simples do lado esquerdo, uns cercados com vacas do lado direito e galinhas correndo soltas.

Dois caras vinham passando, com jeito de agricultores e perguntei se eles tinham gasolina para vender. Eles apontaram para uma das construções, disseram que era o escritório e que era para eu ir lá. Patricia ficou no carro e eu fui. Parecia que eu tinha entrado no túnel do tempo e saído na década de 60: no escritório havia vários rapazes cabeludos e barbudos e moças que usavam umas túnicas coloridas, tudo lembrando a onda hippie. Foram muito cordiais mas explicaram que os carros que usavam eram diesel e que "talvez" uma pessoa tivesse gasolina para vender numa cidade a 20 km em sentido contrário ao que estávamos indo. A outra opção seria continuar em direção à Eilat, pois a 39 km haveria um posto de gasolina. Supondo que o marcador do carro estivesse certo e que o carro fosse econômico, como ainda não tinha acendido a luz da reserva, teoricamente teríamos gasolina para os 39 km, mas isso não servia muito de consolo.

Perguntei se o local era um kibbutz, mas eles disseram que era uma pousada e me deram o cartão deles, dizendo para eu ligar caso ficasse sem gasolina, pois eles chamariam um reboque para nos socorrer. No cartão tinha uma figura na posição de lótus e eles explicaram que praticavam ioga lá. De fato, ao ir até o refeitório deles para encher a minha garrafa de água, passei por quartos decorados com tapeçarias estilo hippie e com tatames no chão. Quem poderia imaginar que acharíamos uma pousada de prática de ioga no meio do deserto do Negev!

Pegamos a estrada de novo, com um olho no caminho e outro no marcador de combustível. Pouco depois, a luz da reserva acendeu, o que só fez aumentar a tensão. Depois de alguns minutos que mais pareceram uma eternidade, avistamos um local que parecia ser uma fábrica, com um portão na frente, de onde vinha saindo uma caminhonete. Parei do lado e perguntei ao motorista sobre o posto de gasolina. Ele disse para eu segui-lo e avisei que talvez ficássemos sem gasolina no caminho.

Mas, talvez por estarmos na Terra Santa, Deus ajudou. Pouco depois ele apontou para um posto de gasolina, que àquela altura do campeonato mais parecia uma miragem. Nunca abasteci um carro com tanto prazer!

Aproveitamos para comer um sorvete (Israel tem sorvetes ótimos) e dar uma relaxada, depois de tanta tensão. Veja as fotos de Ramon e do caminho pelo deserto clicando aqui.

De tanque cheio até a boca, pegamos a estrada novamente e continuamos cortando o deserto, até chegarmos em Eilat. O trânsito na entrada de Eilat estava péssimo, pois além de ter obras na pista, havia muitas rotatórias.

Rotatória em Eilat
Para quem não conhece, rotatória (também chamada de rotunda, ou de balão) é um recurso de trânsito para eliminar sinais em cruzamentos, criando uma "roda" no centro do cruzamento. Os carros vindo das várias transversais entram e circulam em torno desta roda, até saírem onde quiserem, sem precisar de um sinal para coordenar o fluxo. A idéia é boa, mas quando tem rotatória em praticamente cada esquina, como na rua principal de entrada em Eilat, cansa ficar rodando e tendo que prestar atenção para pegar a saída certa.

Depois de trânsito, rotatória, GPS perdido e de pararmos no hotel errado (era da mesma cadeia), finalmente chegamos ao nosso hotel. O hotel fica na Praia dos Corais, em frente ao Observatório Submarino, no Mar Vermelho e, na verdade, mais perto da fronteira com o Egito, do que do centro de Eilat. Parecia estar bem cheio, pois o estacionamento em frente estava quase lotado e a recepção com muito movimento, na já habitual desorganização israelense, sem fila organizada, com uns caras-de-pau passando a frente dos outros.

Quando estávamos prestes a perder a paciência, fomos finalmente atendidos e voltamos para o carro para pegar a bagagem. O hotel é um resort, fica em uma encosta, com os chalés em vários níveis dela. Eles tem uma frota daqueles carrinhos de golfe, que usam para transportar os hóspedes e um desses nos levou para o nosso chalé.

O chalé era lindíssimo, com uma varanda de frente para o Mar Vermelho, muito bem decorado (segundo eles, em estilo tailandês) e confortável. O visual do Mar Vermelho, juntamente com as montanhas da Jordânia do outro lado, mais a própria encosta onde fica o hotel, com jeito de montanha do deserto, e ainda a avenida cheia de tamareiras em frente, faziam um conjunto ao mesmo tempo contrastante e harmonioso, diferente. Como ainda tinha sol, trocamos de roupa e fomos para a piscina.

A piscina era muito bonita, com o deck de frente para o mar e, o mais interessante, com camas ao invés de espreguiçadeiras, incluindo lençol e travesseiro! Uma idéia genial e que veio bem a calhar, considerando que o nosso dia tinha sido meio estressante com o problema da gasolina. Estava uma tarde muito agradável, com o tempo perfeito que caracteriza Israel nessa época. Ficamos na piscina até o sol baixar, tiramos fotos ao redor e fomos descansar no quarto, saboreando a vista da varanda.

Como descobrimos uma churrascaria brasileira em Eilat, resolvemos experimentar e fizemos reservas para o jantar. Depois de passar por mais um monte de rotatórias, chegamos e constatamos que nem precisava de reserva, pois estava bem vazia, talvez por ser 9 da noite de um dia de semana.

Em resumo, eles bem que tentaram, mas não conseguiram a qualidade e a variedade das churrascarias brasileiras. A carne estava regular (carne em churrascaria vazia nunca é boa) e os acompanhamentos deixaram muito a desejar.

Voltamos para o hotel, que a essa altura estava silencioso e com iluminação noturna, criando um ambiente tranquilo. Tiramos mais umas fotos e subimos para o nosso chalé.

Eu queria fotografar o sol nascendo no Mar Vermelho, achei na internet o horário em que ele deveria nascer e botei o despertador, mas foi em vão. O dia amanheceu nublado e quando o sol apareceu, já estava bem mais alto no horizonte que o mar. Ainda assim, deu boas fotos.

Mais tarde, descemos para o café da manhã e tiramos mais umas fotos, mas isso eu conto no próximo capítulo. Veja as fotos do hotel clicando aqui.


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